Santo Oficio

TRASLADO DE PEDRO ANTUNES

Crime e acusação de abuso do sacramento da Ordem

Morada Torre da Magueixa, termo de Leiria

Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 13173
(1625-12-10  a 1626-01-22)

Título formal de Treslado da apresentação de uma carta advocatória que veio do juízo do Santo Ofício da cidade de Lisboa para serem aqui remetidas as culpas de Pedro Antunes da Torre da Magueixa, termo desta cidade de Leiria
(texto em latim e português)


















lua cheia

Inaugurações

Extrato do Jornal Diário de Noticias de 04 de setembro de 1956

Torre da Magueija - Aqui está uma povoação que não vem citada no "Guia de Portugal" mas que existe no concelho da batalha, com os seus 1.830 habitantes, bons e laboriosos camponeses. Situada a meio da encosta de uma serra, de onde se desfruta admirável panorama. Torre da Magueixa constitui notável exemplo de progresso, graças especialmente á Camara Municipal, da presidencia do sr. eng. António de Almeida Monteiro e ao seu povo. Assim se conseguiu ha aproximadamente três anos, construir a escola primária. Onde existia uma lagoa, no centro da povoação, na qual os torrenses se abasteciam de agua, o que, sobretudo no verão, era atentório da saude publica, está a ser edificado um poço e por ultimo em lugar da vereda estreita que era a rua principal pela qual dificilmente passava um carro de bois, já está feita uma rua nova, ampla, aberta... e foi o povo quem meteu ombros á obra, custeando-a. Bem empregados os vinte contos despendidos e bem hajam aqueles que pelo seu esforço realizaram tão importante melhoramento.
Esteve em festa rija toda a aldeia, no passado dia 19. Vieram das cedes do distrito e do conselho os representantes das autoridades, recebidos com palmas e vivas pelo povo. Não faltaram os presidentes das camaras municipais de Leiria e da Batalha e da junta de Freguesia, assim como o senhor comandante da policia. Houve sessão selene na sala da escola primária. Foram distribuidas batas brancas ás alunas, generosa dádiva do sr. Rodrigo da costa Santos. Houve discursos de exaltação do valor das obras empreendidas pela senhora professora e pelos senhor prior da freguesia, delegado escolar e presidente da camara, cuja oração, oi um merecido louvor á povoação pelo amor ao seu progresso. E esta frase - "se todos assim fizessem, não haveria tanta dificuldade em realizar obras, porque só com o auxilio do povo é possivel que os municipios levem a efeito os eus planos de melhoramentos". Seguidamente procedeu-se á inauguração da nova rua principal - linda e significativa festa em que o povo expandiu o seu contentemento e deu largas ao seu intusiasmo pelo Governo da Nação. Musica e foguetes. Vivas clamorosas ao chefe do Estado, ao presidente do Conselho e ao prisidente da camara municipal. E, para que a festa atingisse maior brilho cantaram e bailaram grupos regionais como o já conhecido rancho da Torre. Houve depois um "copo de agua" oferecido pelo senhor francisco Vieira Romão, durante o qual entre outros oradores, o sr. dr. magalhães pessoa, que brilhantemente pôs em relevo a atitude do bom povo da torre da Magueija, exaltou os grandes beneméritos Costa Santos e Vieira Romão e concluiu pedindo ao presidente da camara Municipal da batalha que continuasse a olhar pela laboriosa e honrada gente humilde da povoação, tão digna de respeito e de admiração pela sua acção em prol do bem comum.
Mas, e não obstante o que tem sido realizado, Torre da Maguieja ainda carece de outros e importantes melhoramentos. Só agora conseguiu que, dentro de breve tempo, lhe seja dado luz electrica. Faltam-lhe porém, vias de comunicação, pois só tem uma estrada que a liga á sede do conselho, quando mister se torna possuir outras que sirvam lugares vizinhos, expecialmente a Purolheira, para assim poder ligar a Fatima, grande mercado dos seus produtos agriculas. E, ainda em festa, Torre da Magueija, por intermédio do Diario de noticias, apela ao senhor ministro das obras Publicas para que o governo conceda as necessarias comparticipações do Estado nas obras que tão necessárias se tornam para o progresso da população, cujo povo tem dado sempre o mais salutar exemplo de amor á Pátria, pelo amor á sua pequenina terra.




Documento 4

Esta região é muito antiga, conforme provam as transcrições abaixo citadas, retiradas do dicionário que se encontra na Biblioteca Publica do Arquivo Distrital de Leiria.
"Reguengo é uma povoação antiquíssima e segundo se colige de uma inscrição que está na Capela da Torre desta freguesia, já era povoada no tempo dos Romanos. Eis a inscrição:

.................. ANN.........................                            
LABERIA L.................................
FILIA PIENTI..............................
.......................annorum......................Laberia, dusii
FILIA, ma (TER) pienti (SSIMEE)



(a sua piedosa filha, .... que morreu de paixão..... de...... anos ..... mandou fazer este monumento, laberica, filha de Lucia)

Vê-se que esta inscrição está mutilada e tem letras apagadas. Pela parte de cima devem faltar duas linhas; a primeira que costuma ser a dedicação aos Deuses Manes (D.M.) e a segunda que devia conter o nome da falecida. Falta-lhe também a ultima linha usual nos monumentos funerais dos Romanos que era "S.T.T.L:" (sit tibi terra livis - a terra que seja leve).
Esta Liberia, filha de Lucio, era uma nobre Romana, flaminha de Èvora e da Província Lusitânia.,
Parece que esta sacerdotisa foi célebre no seu tempo, porque Diogo Mendes de Vasconcelos, diz na antiga igreja de santo Estevão de Leiria, estava embebida na parede do frontespício esta inscrição:

LABERIAE L.F. GALLAE
FLAMINICAL EBORENSE
FLAMINICAL PROV. LVST
TANIAE INIPANSAM FVNE
RIS, LOCVM SEPVLTVRAE
ETSTATVAN D. D. COLL-
PPONECIUN DATANT L.
SVLPICIVSBCLAVDIANVS

( Lucio Sulpicio Claudiano, fez á sua custa esta estátuaque lhe foi concedida por decreto dos decorões de Collipo a laberia Galla, filha de Lucio, flaminha de Èvora e da Província da Lusitânia)

Os sacerdotes dos antigos romanos, chamavam-se Flaminices. Tinham obrigações de sustentar o fogo sagrado, sem interrupção e daqui lhes provém o nome.

Acerca da designação do lugar da Torre da Magueixa existem algumas opiniões diferentes em relação ao topónimo Magueixa. Diz-se que o lugar da Torre da Magueixa se dava antigamente o nome de Torre da Magagia que, no português antigo, significava Torre da Magia ou da Feitiçaria por ter pertencido a um mágico ou feiticeiro.

Excerto de jornal do Reguengo do Fétal datado de 1 de novembro de 1969:

"... a Ermida da Magueixa ra da invocação de Santa Maria e não de Santa Iria (Sancte Marie de Magueiga). Houve aqui, segundo cremos uma mudança de padroeira: Santa Maria cedeu lugar a Santa Iria em data posterior ao primeiro quartel do século XIII.
Quanto ao vocabulário Maguieja ou Magueixa, diremos que não é exclusivo da região de Leiria, pois também existe no aro de Lamego uma Magueija, já mencionada num documento de venda de 1163.
Num documento de 1277, inserto no livro de D. João de Portel (p. 133), alude a uma herdade na Magueija, junto do Reguengo, o que parece significar que esta Magueija do termo de Leiria nada tem que ver com a Magajia de Santa Catarina da Serra, ao contrário do que se lê na nota manuscrita do exemplar de "O Cruzeiro" existente na Biblioteca de Leiria.
Assim, foi esta Magueija que impôs sucessivamente o seu nome á Torre e ao Reguengo, identificando-os perante outras Torres e outros Reguengos, até que a invocação de Nossa Senhora do Fétal logrou, por sua vez, impor o seu nome ao reguengo, tornando-o Reguengo do Fétal.
Porque a designação Magueija, ou Magueixa é antiquíssima e a Torre aparece nomeada Torre de Magueija no Cadastro da população do Reino, ordenado por D. João III em 1527, somos de opinião que se deve manter, para a Torre, o nome Torre da Magueija ou Magueixa..."







Da Ermida da Santa Iria da Torre


     No Lugar da Torre da Magueixa, que está nesta Freguesia do Reguengo, havia e há uma ermida, da invocação de Santa Iria, e tem Confraria, mas sem renda; é a imagem da Santa de vulto, os moradores do dito lugar são obrigados à fábrica.
     Esta Santa, de mais de ser portuguesa, se tem por tradição, constante neste Bispado, que é natural do Lugar da Torre, que é distante desta cidade légua e meia, e que nas mesmas casas, que foram de seus passados, se fez a dita Ermida, posto por Escovar, no Livro dos Arcebispos de Lisboa, tem outra opinião.
     Está a imagem da Santa em um nicho de pedra, pintado, tem sacristia, com seus caixões, alpendre e um sino. Está outro altar na Igreja, junto ao arco, invocação de Santo António, e se lhe faz festa.
     Está também situada nesta ermida uma confraria de defuntos, antiga, cujos confrades acompanhavam os confrades enfermos em casa e os defuntos à sepultura, e tinham seu bodo no dia das confrarias, que é o segundo Domingo de Outubro, que tudo ainda se conserva.

Excerto do Livro:
"Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria"
(Transcrição da 2.ª edição de 1898)
    
De Santa Iria

      Santa Iria foi Portuguesa, como é notório, e natural do Lugar da Torre, Freguesia do Reguengo, deste Bispado, como nele, e particularmente na dita Freguesia, é tradição antiquíssima e constante. Nascida de pais nobres, ricos e católicos, chamados Hermígio e Eugénia, e conforme a mesma tradição, nas suas mesmas casas se fez a Ermida da Santa (posto que Escovar, no Livro dos Arcebispos de Lisboa, segue o contrário). Criou-se a Santa em Tomar (naquele tempo chamada Nabância), com suas tias Casta e Júlia, irmãs de seu pai, em um Recolhimento, com outras donzelas; teve por Mestre o Monge Remígio, de grande fama de virtude e prudência.
      Saindo ela um dia de S. Pedro à Igreja do Santo, a viu Britaldo, Filho que era de Castinaldo, Senhor que era da dita Vila. O qual, de modo se afeiçoou à sua rara formosura, que veio, apertado do fogo de amor, a cair enfermo por lhe não dar lugar a grande honestidade da Santa a se lhe poder descobrir sua afeição; com o que chegou ao extremo da vida, por lhe não poderem aplicar os médicos os remédios convenientes a enfermidade que não conheciam. O qual estado de Britaldo revelou Deus à Santa que, confiada na Divina Graça e levada do Espírito do Céu e caridade do próximo, o foi visitar, com o recato e companhia devida à sua modéstia e profissão. Tratou logo de o desenganar de suas pertenças; e ele se satisfez com ela lhe prometer que jamais se afeiçoaria nem casaria com outro que não fosse ele; o que a Santa prometeu com grande vontade, como quem tinha o seu amor posto em Deus. Deixou-o a santa melhorado, e seus pais o publicaram por milagre. Passados dois anos, que a Santa gastou em exercícios sempre espirituais, sucedeu a desenfreada afeição com que seu Mestre, Remígio, se lhe declarou; e dando-lhe um e muitos assaltos, ela ficou tão firme que, não só com desprezo e severas palavras, mas com heróico furor, repreendeu asperamente o desenfreado despejo de Remígio. Do que ele ficou tão corrido e indignado, que logo buscou traça para se vingar, que foi dar-lhe uma bebida, feita com tal confeição que, pouco a pouco, lhe foi crescendo o ventre, a modo de mulher pejada, e a suspeita de o ser cresceu entre os maus com mais eficácia, sabendo que o Mestre o certificaria, com o que o crédito da Santa começou a perecer. E logo chegou a fama a Britaldo, e com ela o desejo da vingança, porque logo trocou em ódio a grande afeição que lhe tinha, e chamando um Soldado, seu familiar, lhe deu conta do caso, pedindo-lhe brevidade na execução da vingança; e, como a Santa costumava sair a orar nas ribeiras do Nabão, que estava dentro dos limites de seu Recolhimento, foi o Soldado buscá-la a este lugar, onde a achou depois das matinas, posta em oração, com os joelhos em terra e os olhos no Céu; atrvessou-lhe com uma espada a garganta, e a Santa rendeu o espírito a seu Criador; o matador a despojou de seus vestidos de Religiosa, em que estava, e deitou o corpo bem-aventurado no rio. Amanheceu; e, como as tias da Santa viram que não aparecia, como também eram das que duvidavam de sua castidade, entenderam que, pelo temor da infâmia, se ausentara. Mas Deus Nosso Senhor revelou tudo ao Abade Célio, Tio da Santa, e o lugar onde achariam seu sagrado corpo, que logo manifestou ao Povo; e, dando graças a Deus, o foram buscar, com solene procissão, defronte da Vila de Santarém, aonde o tinha lançado a corrente do Zêzere, em cujas águas entrou pela Foz do Nabão. Chegada a procissão ao Sitio da Ribeira, se abriram milagrosamente as áuas do Tejo e, fazendo estrada livre até onde estava o corpo, em um sepulcro admirável, obra dos Anjos, chegaram a venerá-lo com todo o acatamento, derramando muitas lágrimas.
      Intentou o Abade, e os mais que com ele iam, tirar do sepulcro o corpo da Virgem mas, por mais força que para isso fizeram, o não puderam mover; pelo que, persuadidos que era vontade de Deus que ali ficasse, se recolheram e levaram alguns de seus cabelos e parte da camisa como perciosas relíquias que puseram no Mosteiro de Célio, que é hoje de religiosos de S. Francisco, intitulado de Santa Eira, na mesma Vila de Tomar; as quais relíquias foram remédio a muitos cegos, aleijados e a outros enfermos em que tocaram. Apartada a procissão do sepulcro, tomou o rio o seu antigo curso.
      Muitos anos depois, querendo a Rainha Santa Isabel, mulher de El-Rei D. Dinis deste Reino, visitar aqule sepulcro, com semelhante milagre ao primeiro, tornou o Tejo a retirar-se e lhe deu lugar que chegasse a venerá-lo; e conta-se que, querendo o dito Rei D. Dinis seguir os passos da Rainha, lhos atalhou o rio, mostrando que aquele singular favor do Céu era mais devido à santidade que ao ceptro. Deixou a Rainha Santa desta visita um padrão, que mandou pôr no mesmo lugar, tão eminente que nunca o Tejo o encobre, por mais inundações que haja.
      Foi este martírio da Santa no ano de 653, em os 20 dias do mês de Outubro, e neste dia o traz o Martirológico; dela trata Vaseu, na Crónica de Espanha, e o Flos Sanctorum, espanhol, e, mais copiosamente, Andrade Resende (26), no Breviário Eborense, e o padre Escovar, no Livro dos Arcebispos de Lisboa, de quem é quase tudo o acima dito, e outros que ele cita.
      No tempo do martírio desta Santa era Sumo Pontífice Martinho, primeiro do nome; Imperador Romano, Constante 2.º, e reinava na Lusitania El-Rei Rezebuindo.
      Duram ainda por testemunhas deste martírio, segundo o dito Escovar, umas pedras e seixos que se acham no dito lugar em que foi lançado seu corpo, com nódoas de sangue tão vermelho e fresco que parece haver pouco tempo que ali se derramou, havendo 1300 (27) anos que foi o seu martírio.

Excerto do Livro:
 "Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria"
(Transcrição da 2.ª edição de 1898)

“Os Propagandistas no Largo da Lagoa – (1970?) ”

O som forte da voz de propaganda troou por toda aldeia, fazendo acorrer, em poucos minutos, ao largo da Lagoa, centenas de pessoas inquietas, em sobressalto, como que, surgidas do nada.
Em cima duma carrinha contendo cobertores, roupa interior, pomadas, entre outras coisas, havia um homem de meia-idade e um rapaz.
A assistência maravilhava-se com o papaguear da propaganda, mas muito poucos se atreviam a comprar. E o homem continuava sempre:
-...Pois não é por cem, nem por oitenta que leva esta toalha bordada pelas melhores bordadeiras deste país! É por cinquenta, meus senhores e minhas senhoras! Reparai, olhai e vejam este lindo tecido de linho! E ainda se levar a toalha pelos cinquenta escudos, aqui tem um par de guardanapos do mesmo tecido que lhe ofereço eu! E ainda há mais: uma caixa desta pomada santa...
No princípio custava a comprar, mas depois de dois ou três darem o exemplo, tudo se tornou uma questão de hábito, apesar da magreza das carteiras.
E o homem continuava:
- Reparem neste lindo cobertor felpudo que torna as noites frias em noites de verão! E por quinhentos escudos, meus senhores e minhas senhoras, levará um cobertor, estas almofadas, estas camisas e este xaile para passear nas noites de luar! Vejam caros senhores a pechincha desta carga fabulosa! Mas, atenção, ainda não é tudo! Eu disse quinhentos escudos? Pois ainda menos do que isso! Fazemos uma troca! Os senhores dão-me o dinheiro, eu dou a carga e depois, caros senhores, reparai bem, depois, voltarão a receber o dinheiro!
Aqui, a assistência interrogava-se e não queria acreditar. Ouviam-se murmúrios de desacordo:
- Vigaristas! Ladrões! Vão mas é enganar a vossa avó!
- Calma meus senhores! Vou mostrar-lhes em como não sou nenhum charlatão! Ora comecemos. Quem quer entregar-me primeiro os quinhentos escudos? Juro por esta criança que aqui está a olhar para mim que voltarei a dar o dinheiro, quando receberem a carrada. E já sabem, se eu fizer alguma trafulhice, podem-me agarrar pelos cabelos e mandarem-me pelo vale abaixo.
Era tão convicto nesse juramento que imediatamente as pessoas acreditaram, indo logo algumas oferecer a nota pretendida e, numa rapidez mecânica, as cargas estavam nas mãos das pessoas, juntamente com a nota de quinhentos escudos. Parecia impossível, mas a verdade estava ali à vista de todos, como num sonho!
Em cinco minutos o ar agitou-se de barulho, de emoção e de inveja. A poeira do recinto girava em volta desta fúria louca, formando um círculo de pó, pairando no ar, como que a proteger aquela folia.
Toni e Pedro olhavam boquiabertos, perfeitamente estupefactos com aquele negócio e exclamavam:
- Mas, o homem tá doido varrido! Olha, olha! Tá mesmo a devolver o dinheiro, à ti Joana!
- Qual doido, meus meninos! Neste mundo ainda se vê gente boa! – Era uma mulher gorda que saltava, estremecendo, atirando com a carga ao ar e exibindo a nota.
Por toda a parte se viam mulheres a discutir o seu lugar na fila, com medo que as cargas acabassem. E o homem continuava, gritando bem alto:
- Calma que chega para toda a gente! Mas, para ser mais rápido, façamos uma coisa... As pessoas que querem carrada ponham ali a nota naquela caixa e depois vão para detrás do carro, para não se misturarem com toda essa gente. Tá entendido?
- Táaaaa... – Ouvia-se um grito unânime.
O pensamento das pessoas só tinha um fito, a carga em troca da nota emprestada. Quem não tinha dinheiro, batia no ombro do vizinho e dizia:
Empresta-me quinhentos escudos, caramba! Deixei a carteira em casa e nunca esperava por isto!
- Tome lá home! Coisas destas não há todos os dias! – E logo ao lado o exemplo corria.
- Oh ti Iria! Na tem aí uma nota que me empreste? Assim que a tiver de novo na mão dou-lha logo!
- Tá bem Maria do Carmo, por acaso até tenho. – E levava as mãos ao lugar dos seios, por debaixo da blusa.
Foi naquela altura que os cofres secretos das gentes simples se mostraram.
Enquanto isto, a assistência apertava em redor do carro. O dinheiro subia na caixa e a fila aumentava no lado oposto ao da carrinha.
O rapaz e o homem continuavam a fazer as cargas e atiravam agora com xailes de lã para cima da assistência. Esta, debatia-se por os agarrar e armavam-se zaragatas, mas as pessoas continuavam felizes, divertidas e foi então que aconteceu o inevitável. O homem disse para o companheiro “agora” e esta palavra como senha, foi o suficiente para que o rapaz entrasse na cabine da carrinha, o suficiente para que fossem atirados talheres para cima do povo em volta, obrigando-os a curvar-se para apanharem as colheres, garfos e facas, empurrando uns, empurrando outros, aumentando o pó que se elevava no ar e que lhes tapava a vista. E foi então, no preciso momento em que aquela multidão se curvava, numa confusão louca que o carro arrancou, deixando uma nuvem de pó ainda maior atrás de si.
Como um raio que atinge algo, a consciência das pessoas recuperou os sentidos e caiu pesada, dentro do poço do engano, da traição. A tristeza desceu ao local onde segundos antes era um espectro. Choraram-se “lágrimas de sangue”, zangaram-se os vizinhos e em vez da união entre todos ser a consequência natural, as rivalidades acentuaram-se e a desunião instalou-se na sua vulgaridade suja que sempre acaba por vencer.
Também Toni e Pedro saíram do efeito hipnótico a que tinham estado submetidos e comentavam agora:
- Nunca vi uma coisa assim! Ao mesmo tempo dá-me vontade de rir!
- Parece estar toda a gente bêbeda, caramba!
Foi então que o riso da criançada encheu o recinto, espontâneo, troçando do engano e da vigarice dos adultos.


Excerto do livro "Toni"
de Elisa Oliveira

Bisavô

César

Amigos